[REPOST] O Feminismo das Brown Eyed Girls

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Esse é um repost do meu texto originalmente publicado no Headcanons, em fevereiro. Só pra ficar mais organizado mesmo :).

Mesmo fazendo parte de uma cultura totalmente diferente, girl groups no Kpop sofrem da típica dicotomia que julga mulheres de acordo com o quanto elas se encaixam em “putas” ou “santas”. Ou é conceito aegyo, ou é conceito sexy. Ou é lado red, ou é lado velvet. Até as tentativas que supostamente deveriam empoderar são muitas vezes mais um clickbait do que uma mensagem efetiva. E, previsivelmente, a grande maioria desses conceitos é bem rasa, valendo-se apenas de agradar os olhos (e às vezes os ouvidos). Esse assunto dá todo um outro post, mas em alguns poucos grupos vejo o destaque se voltar para as mulheres e um produto que contesta e desafia ao invés de só agradar e aceitar.

Um desses grupos, Brown Eyed Girls (ou B.E.G.) é um dos girl groups mais antigos ainda em atividade no Kpop, tendo debutado em 2006. Essa longevidade é algo incomum, principalmente em um meio onde a juventude e a infantilização são supervalorizadas. Formado pelas integrantes JeA, Narsha, Miryo e GaIn, um dos grandes diferenciais do grupo é que elas começaram numa idade considerada velha, com uma média de 25 anos (só a GaIn que tinha 20). Elas poderiam ser consideradas “tias” desde a estreia, já que o prazo de validade no Kpop é (ou era) mais ou menos por aí. Porém, um pequeno detalhe: ninguém sabia da idade real delas até 2010.

O Início

Come Closer”, o single de debut, é interessante pelo fato de que elas não aparecem no MV. A estratégia da gravadora era, além de esconder as idades, focar na música e não no rostinho bonito em que todos (posso dizer todos? Porque né) os grupos de Kpop se firmam.

Esse MV, por sua vez, passa um clima tranquilo e triste para, na verdade, uma história bem bizarra: a moça, frustrada, cria uma série de clones robôs do ex. Porém, ela acaba percebendo que não adianta tentar tapar buraco com altas tecnologias, se o que está quebrado está dentro de você.

Depois do debut, as Brown Eyed Girls lançaram algumas coisas meio aleatórias, testando as águas de onde elas fariam mais sucesso, e só em “I Got Fooled by You” elas retomam a linha original, numa história um tanto previsível sobre um carinha que sai com todas, mas no final perde o carro quando a GaIn cansa da enrolação. Hahaha.

Por fim, “How Come” mostra cada uma delas em um estágio diferente de decepção amorosa. E só estou dando destaque pra este single por causa dessa ideia mesmo, porque o que poderia ter sido uma narrativa bem explorada se perde em cenas de dança e figurinos que destoam de toda a ideia inicial.

Esses três singles funcionam como uma base para a trajetória inovadora que o grupo seguiu, nos quais vemos temas que fundamentam todo o repertório delas, como vingança, violência e relacionamentos.

A Maturidade

É aqui que tudo começa a mudar para as Brown Eyed Girls. Sendo o maior hit delas até hoje, “Abracadabra” dominou os Top TVZs da Coreia e solidificou o grupo como um ato relevante na cena musical coreana. Mais ou menos nessa época, elas também admitiram suas idades verdadeiras e Narsha e GaIn confessaram ter realizado cirurgias plásticas. *BOOM*

Verdades jogadas na cara, os fãs de Kpop também receberam um MV altamente subversivo, onde Narsha cansa de ser traída por um homem (que pegava a GaIn) e decide acabar com tudo. E sim, tudo mesmo. Sob o olhar de Miryo em sua sala Big Brother e com a ajuda de JeA para conseguir comprimidos envenenados, ela algema e explode o traidor, tranquilamente indo beijar GaIn depois, num subtexto lésbico como nunca visto antes no Kpop, mas na verdade com o objetivo de dividir o comprimido que acabará com a vida das duas. Curiosamente, nele se lê “amor”.

Em “Sign”, o próximo single e também hit, porém não tão famoso, temos praticamente um curta de ação. As integrantes são secundárias na história, que acompanha um homem lutando contra uma gangue cujo chefe mantém as moças em tanques de água. Na época em que foi lançado, o MV recebeu muitas críticas pelas cenas de violência explícita. Eu acho interessante elas utilizarem um conceito tão comumente “masculino”, mesmo que elas tenham sido apenas figurantes passivas esperando salvação no final.

Já em “Sixth Sense”, continuamos com a abordagem da violência, dessa vez na forma de uma repressão militar. Cada uma das integrantes aparece em diferentes formas de prisão: Miryo é forçada a entregar uma mensagem aos inúmeros microfones em sua frente, Narsha é cercada por câmeras e exibida como um animal exótico, JeA se encontra presa entre galhos e água, e GaIn está algemada e é observada, também, por uma câmera.

A ideia de prisão e de um sistema opressor nos permite traçar inúmeros paralelos. Desde uma prisão governamental, passando pela prisão que é ser uma mulher, e até a prisão de ser uma celebridade e, portanto, sempre algemada a um público que julga todos os seus passos.

Conforme assistimos ao MV, vemos cenas de rebelião e batalha, em que as integrantes conseguem se libertar e consequentemente libertar também os soldados que lutavam contra elas. Temos um vislumbre de esperança, com a máscara dourada do líder caída no chão. Mas, infelizmente, era só um sonho: os segundos finais do MV mostram que a batalha ainda nem começou.

Pode parecer que a narrativa peca no final. Mas, pensando bem, existe um paralelo mais verdadeiro com a realidade?

“Cleansing Cream”, assim como “Come Closer”, é um MV em que as integrantes não aparecem, dando destaque à narrativa.

Vemos uma menina que brinca de experimentar o mundo da irmã mais velha por meio de sensações. O fato dela estar vendada em algumas cenas colabora para mostrar sua inocência, sua cegueira quanto à realidade. A irmã mais velha se irrita com a presença da menina em todos os momentos de sua nova vida adulta, perturbando a aparente perfeição que ela finalmente atingiu.

Conforme a história se desenvolve, somos levados a entender que, na verdade, as duas são uma só. Quando a menina aparece usando uma maquiagem borrada, sua imagem mais velha se descontrola, a arrasta para o chuveiro e tenta limpá-la à força. Porém, ela percebe que de nada adianta tentar maquiar os problemas – eles continuam tão vivos quanto antes.

Em uma de suas frases mais famosas, Simone de Beauvoir disse “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Vemos em “Cleansing Cream” um exemplo dessa transformação através do uso da maquiagem e, por que não, da analogia entre mascarar/maquiar o passado, a ingenuidade, a culpa que há em abandonar a criança que um dia fomos para assumir uma nova versão de nós mesmas conforme as expectativas da sociedade: a mulher adulta.

Ok, esse não é um single oficial, e sim uma esquete do SNL coreano. Porém, é mais uma mostra da genialidade e coragem das B.E.G.

Se em “Cleansing Cream” vimos o processo de transformação que a maquiagem pode proporcionar, em “Plastic Face” vemos um tapa na cara da hipocrisia em relação à cirurgia plástica. Estamos acostumados a analisar a cirurgia plástica e a modificação corporal somente pelo lado que leva em conta a crescente obsessão por um padrão de beleza inatingível. Muitas agências, inclusive, respondem por suas artistas dizendo que elas apenas “ficaram naturalmente mais bonitas“, tamanha é a controvérsia sobre o assunto. Mas as Brown Eyed Girls, cansadas das máscaras (lembrando que até “Abracadabra” só GaIn e Narsha tinham admitido publicamente suas plásticas), nos mostram o lado das mulheres que fizeram cirurgias, não escondem e se sentem mais confiantes por isso.

Nessa esquete, Narsha, Miryo e JeA apontam os inúmeros preconceitos que as pessoas costumam reproduzir: dizer que só belezas “naturais” são válidas, que elas são monstros plásticos, que são todas iguais. A desconstrução vem com argumentos bem humorados e honestos: na realidade, muitas belezas “naturais” não o são, o preço de uma plástica nos olhos, nariz e boca é mais barato que uma bolsa de grife, e não há motivo para se envergonhar de modificar o próprio corpo, da forma que desejar. Resumindo em três palavras: Own your shit.

Tem como não amar? ❤

Não devemos ignorar o lado preocupante das cirurgias plásticas, mas numa indústria em que o “damned if you do, damned if you don’t” prevalece, assumir as próprias escolhas e seguir em frente com isso é um exemplo muito bem-vindo.

Como o nome já diz, “Kill Bill” é inspirada no filme dirigido por Quentin Tarantino. Enquanto a letra leva a sério o tema de vingança, o MV faz mais uma paródia com cenas hilárias de luta recriando vários momentos do filme. Apesar do viés cômico, a escolha do filme já torna esse single interessante, visto que Kill Bill pode ser considerado um filme que busca retratar mulheres como agentes em suas vidas, no mesmo patamar que qualquer filme de ação seria caso seu elenco fosse majoritariamente masculino.

Esse single de 2013 solidificou ainda mais a carreira das B.E.G. e o repertório marcado por conceitos polêmicos para o Kpop e, principalmente, para girl groups. Estabelecidas no cenário musical, libertas de (quase) todas as máscaras, as Brown Eyed Girls nos mostram que o que existe para mulheres após o “prazo de validade” da indústria pop não é o declínio ou o nada e, sim, a liberdade.

O Futuro

Em seu mais recente comeback, de 2015, as Brown Eyed Girls mudaram de gravadora e voltaram com dois singles bastante apropriados para um novo começo.

Infelizmente a relação com o livro de Aldous Huxley fica só no nome, mas nem precisa ter muito mais o que dizer. “Brave New World” vem como uma mensagem do futuro onde as B.E.G. são porta-vozes de uma nova era. All about the universe is all about to be reversed. Sejam bem-vindos.

Na minha visão, “Warm Hole” é a primeira parte desse admirável mundo novo das B.E.G. Os figurinos e a maçã sugerem essa continuidade, inclusive, como se elas estivessem em uma dimensão paralela (wormhole, han). Mas o mais importante é que SIM, essa música é sobre exatamente isso que vocês estão pensando: querer e gostar de sexo <3. E a melhor parte é que elas, de alguma forma, conseguiram apresentar isso ao vivo nos Raul Gil coreanos, que geralmente censuram qualquer coisa.

Bônus

Além disso tudo, acho importante mencionar que JeA e Miryo ajudaram a escrever algumas das músicas, como “Abracadabra” e “Kill Bill”. O grupo conta também com a parceria de duas outras mulheres durante toda sua trajetória: Kim EaNa, que escreveu as letras de “Warm Hole”, “Brave New World”, “Kill Bill”, “Sixth Sense”, além de alguns singles solo da GaIn; e Hwang SooAh, que dirigiu “Abracadabra”, “Cleansing Cream”, “Sign”, “Sixth Sense”, “Kill Bill”, “Brave New World” e “Warm Hole”, além de todos os singles solo da GaIn e da Narsha. Ou seja, temos não só um produto final interessante, como um time no backstage que também faz questão de dar voz e visão às mulheres.

Eu também recomendo checar a carreira solo de todas elas, com destaque especial pra Narsha, encarnando o mal e inspirando Lady Gaga, e fazendo pegação (coisa que nunca acontece em MVs de Kpop) e pra GaIn, falando sobre masturbação feminina, abuso físico e o mito de Adão e Eva sob uma nova perspectiva.

Com isso, acho que deu pra perceber por que Brown Eyed Girls é, para mim, um dos grupos mais inovadores e incríveis da música pop, desafiando o prazo de validade das mulheres na indústria, promovendo reflexões sobre nossos preconceitos, e se afirmando como agentes conscientes e responsáveis sobre suas vidas e sobre as mensagens que transmitem.

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3 respostas em “[REPOST] O Feminismo das Brown Eyed Girls

  1. Esse texto é incrível, e quanto mais lugares da internet ele estiver melhor! Parabéns novamente Tássia!

    PS: Trás os outros pra cá também, tipo o do Tarô 😍

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Você detesta Teorias de Kpop? | E Aí Surgiu o Kpop

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